Sunday, May 19, 2013

Heideggerian mornings


you are just a one, plus (another) one that watches the latter. you are a one and a other.
tu est un on, et un (autre) on qui regarde le premier. tu est un on et un autre.
tu es um alguem, e mais um (outro) alguem que olha o primeiro, o outro. tu es um alguem e um outro.

I am an "I am"er
je suis un "je suis"eur
eu sou um "eu sou"ador

I am a one that "I am"s
je suis un on qui "je suis"es
eu sou um alguem que "eu sou"a

I am the one that "I am"s
je suis l'on qui "je suis"se
eu sou o um que "eu sou"a


Heidegger's project, "being and time" and "on the way to language" (from where these echoes above come) is the most incredible thing that I have ever seen in this world.
Le project de Heidegger, "etre et temps" et "acheminement vers la parole" (d'ou viennent ces echos), est la chose la plus incroyable que j'ai jamais vu dans le monde.
O projecto de Heidegger, "o ser e o tempo" e "a caminho da linguagem" (de onde ressaltam estes ecos em mim), e' a coisa mais incrivel que eu ja' vi neste mundo.

Saturday, May 4, 2013

A Produção de Sentido (45 anos do Maio de 68)

Gilles Deleuze escreveu que o Maio 68 nao aconteceu (artigo de 1984) mas a verdade e' que o seu livro Lógica do Sentido, que foi publicado em 1969, pode muito bem ter sido escrito em Maio de 1968.

Talvez o Maio de 68 só tenha acontecido em casa do Gil na décima primeira serie da Lógica do Sentido: a série do nonsense, do não sentido (que é diferente do sem-sentido). É aqui, no nonsense, que encontro o que acho basilar em Deleuze. Ele representa o encontrar dos processos de sentido no nonsense. Deleuze é um aventureiro no mundo do nonsense, do caos, do impensável. É a tarefa dele explorar esse espaço e descobrir ai, um sentido. O produzir de um sentido. Deleuze ensina-nos como acontece a produção de sentido, como produzimos o sentido das coisas e do mundo; ou melhor, despersonalizado: como se produz o sentido? Como se produzem os novos sentidos?
E isto é a linha de fuga: a linha nova que atravessa um espaço e representa, em si, um sentido novo.

Para digerir melhor o texto, traduzi para Português. Parece-me ser um resumo fácil de entender mesmo para quem nunca leu Deleuze:

"É agradável que ressoe hoje que o sentido nunca é um principio ou uma origem, mas que é produzido. Não é algo a descobrir, a restaurar, ou a re-empregar; é algo a produzir por uma nova maquinaria. Não pertence a nenhuma altura ou profundidade, mas antes a um efeito de superfície, sendo inseparável da superfície, que é a sua própria dimensão. Não é que falte profundidade ou altura ao sentido, mas antes que falta superfície a' altura e a' profundidade (...).

Não procuramos, por exemplo, em Nietzsche um profeta do anulamento ou da transcendencia. Para Nietzsche, a morte de Deus ou a queda livre do ideal ascético nao tem importância desde que sejam compensadas pela falsa profundidade do humano, pela ma fé e pelo ressentimento. Nietzsche prossegue as suas investigacoes noutro lugar, no aforismo e no poema (onde nem Deus nem Homem falam), nas maquinas para a produção de sentido e para a pesquisa da superfície. (...)

Nós não procuramos em Freud um explorador das profundezas e do sentido originário, mas antes o prodigioso descobridor da maquinaria do inconsciente através da qual o sentido é produzido sempre como uma função do nao-sentido (nonsense).

E como é que nós podíamos não sentir que a nossa liberdade e forca residem, nao no universal divino nem na personalidade humana, mas nestas singularidades que são mais nós do que nós mesmos somos, mais divinos que os deuses, pois elas animam concretamente poema e aforismo, revolução permanente e acção parcial?

O que é burocrático nestas fantásticas maquinas que são pessoas e poemas? É suficiente que nos dissipemos, nós mesmos, um pouco, que sejamos capazes de ser a' superfície, que estiquemos a nossa pele como um tambor, (...) Um quadrado vazio nem para Deus nem homem; singularidades que não são nem gerais nem individuais, nem pessoais nem universais. Tudo isto é atravessado por circulacoes, ecos, e eventos que produzem mais sentido, mais liberdade, e mais forca (...)

A tarefa de hoje é fazer o quadrado vazio circular e fazer singularidades pre-individuais e não-pessoais falar - em resumo, produzir sentido."

Sunday, April 14, 2013

"tenho dois eus", pelo menos... ou nunca me esquecerei de quem somos

Quando penso nesta viagem, numa viagem, ja’ daqui metido nesta vida de cidade apertada e concretamente repetida, aperta-se-me o coracao, nesse familiar e tao vasto horizonte de tristeza sem palavras, ao ponto de eu nao pensar quase nunca em viagens.

A vida nao é isto, a vida é viagem. Mas quando nao viajo tenho de me mentir sempre e dizer para mim que a vida nao é possivel. Esqueco-me, aqui metido, até que eu sei coisas muito concretas que quase ninguem a’ minha volta sabe e que tenho em memorias, concretas!, aquilo que muitos nem chegam a ter em sonhos. Ofereco-me a’ vulgaridade repetida como quem sabe, tao bem!, que a diferenca nao pode ser vivida em grupo, por definicao. O grupo e’ a repeticao.

Nao so’, mas tambem, Deleuze. In Anti-Oedipus, Gilles Deleuze and Félix Guattari set forth the following theory: Western society's innate herd instinct has allowed the government, the media, and even the principles of economics to take advantage of each person's unwillingness to be cut off from the group. What's more, those who suffer from mental disorders are not insane, but are individuals in the purest sense, because they are by nature isolated from society.

Duas semanas depois de recomecar a trabalhar (num banco em Londres), e dois minutos depois de contar pelos dedos o numero de meses que estive “sem fazer nada”, que é como quem diz “a viver”, leio dois blogs colocados estrategicamente do outro lado do mundo e tenho dois pensamentos. TENHO DOIS EUS, pelo menos: esquizofrenia que me atira formas de mim, vozes minhas contra mim, com vozes no ar, vozes. Como esta que tu ouves agora dentro de ti leitor!, ate' finges que sou eu que estou ai a falar-te ao ouvido (neste agora desse teu tempo leitor), finges... mas o que é preciso é continuar a ouvir vozes, no dia em que for um, morri… no dia em que fores um, tambem!, morreras... e entendo que posso passar anos a fingir a unicidade, mas nunca me esquecerei de quem somos!

(texto com 2 anos, interessa-me o tom afectado com que escrevo: prova da dificuldade em aceitar a minha propria unwillingness to be cut off from the group?)

Monday, March 4, 2013

Herberto Hélder - SÚMULA

(que maravilha ir so' tarde,
assim, encontrar tal maravilha)

SÚMULA
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
(e uma leitura muito boa com musica do Rodrigo Leao)


Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

In «Ou o Poema Contínuo», Assírio & Alvim, 2001

Tuesday, January 29, 2013

Live Concerts - TOP 10


Trarei sempre estes momentos guardados nos cantos do meu bolso.

Ravi Shankar - Celebrating 90th year
2011 - Barbican, London

Prokofiev - Piano Concerto 5 - ONP - Filipe Pinto Ribeiro (5m15s when the orchestra comes back)
2004 - Sao Bento da Vitoria, Porto

Repin e Berezovksy - Prokofiev - Sonata for Violin and Piano No1 ("the wind" at 4m35s)
2002 - Cote d'azur, France

Steven Isserlis - Dvorak - Cello Concert (10m50s when the flute plays the melody)
2006 - Lausanne, Switzerland

Elgar - Land of Hope and Glory (with 5000 people standing and singing along)
2010 - Royal Albert Hall, London

Wagner - Parsifal (initial and ever repeated melody)
2011, Coliseum, London

Yann Tiersen - Sur le fil
2001 - Coliseum, Porto

Simon Rattle, Tchaikovsky - Symphony 6 (trombones at 14m58s)
2002 - Nice, France

Frederic Guy, Lizst - Funerailles
2005 - CCB, Lisboa

Piazzolla - History of Tango (Flute and Guitar)
2006 - Geneve, Switzerland

Rancho Folclorico das Caxinas e Poca da Barca
2004 - Beira Alta, Portugal

Saturday, January 5, 2013

o síndrome do viajante (de um post de Set 2007)

Há uma sentimento que me invade quando viajo, o síndrome do viajante.
As jorradas de vida, realidade e diferença que me penetram, reflectem-se nos meus olhos e no meu sorriso permanente. Um estado de harmonia com a violenta real-diversidade. As ideias já não são concretizáveis, são meramente visíveis. As respostas possíveis da politica, metafisica ou ética misturam-se em volta da avalanche de dados. A maquina cérebro vai sempre dizer que há uma lógica, uma realidade, um sentido. Viajar é derrotar esta inércia estruturante do nosso cérebro.

Há só uma teoria que me invade lentamente, que todos confirmam mas ninguém concorda: somos todos a nossa educação e a luta que temos com ela nos limites de nos mesmos. Ética e politicamente. Cultural e socialmente.
Siddartha diz-nos que, se formos capazes de absorver o para la dos nossos limites, chega-nos um sorriso. Deleuze diz-nos que se nos perdermos ai, no nirvana, na despersonalização, nos encontraremos num final. Nietzsche também vive ai, como se houvesse um ponto de chegada. Eu não espero encontrar-me senão na medida em que regressarei sempre a mim, a uma construção qualquer; amalgama de educação e revolta.

Tuesday, December 4, 2012

Antonin Artaud - Três Dimensões


Teatro - Perigo e Realidade
A dimensão mais conhecida de Artaud é a do seu inicio de carreira, do homem do "Teatro da Crueldade". O teatro da crueldade é um teatro onde vais com medo, não porque vão acontecer coisas horriveis ou vais ver coisas nunca antes vistas (que tambem pode suceder), mas porque neste teatro, não vão haver representacões, neste teatro as coisas vão acontecer mesmo. As duas palavras chaves para este teatro: perigo e realidade. Porquê mentir?

Loucura - Fecalidade e Moralidade
Em 1947, jà depois de ter vivido com Indios mexicanos e ter passado vários anos num asilo psiquiátrico, Artaud produz um programa de rádio que não chegou a ser transmitido (censura). Na peca com titulo "Para acabar com o julgamento de Deus" ("pour en finir..." tem uma sonoridade muito especifica), Artaud fala rapidamente de "productos americanos", da "Russia de Stalin", do Peyote dos Tarahumaras e acaba na seccãintitulada: "Em busca da fecalidade" ("à la recherche de la fecalité") onde escreve e lê (grita) ao microfone:

Là ou ça sent la merde, ça sent l'être ("Onde cheira a merda, cheira a ser") [a gravacao]

Letras - Poeta Separado
Mas Artaud nãé so' gritaria, Artaud é um homem de letras. Se Pessoa foi o dividido, Artaud era o separado. Separado do mundo, dos outros, mas principalmente, de si.

         "La Danse du peyotl: (...) ce cataclysme qui était mon corps… Après vingt-huit jours d’attente, je n’étais pas encore rentré en moi ; – il faudrait dire : sorti en moi. En moi, dans cet assemblage disloqué, ce morceau de géologie avariée."
         "A danca do peyote" (...) este cataclismo que era meu corpo.. Após vinte e oito dias de espera, ainda não tinha voltado a mim – ou melhor dizendo, saído até mim. Até mim, esta montagem deslocada, este pedaço de geologia avariada."

A versão inglesa de "sorti en moi" é talvez a melhor: "gone out into myself".

Conclusão
Artaud representa o perigo nas letras. Artaud é uma chaga do sangue que nelas corre. Ou a memória do sangue que não escorre nas letras dos outros que escrevem. Auto retrato: